Como a Laura nasceu

Quando completei 36 semanas de gestação o médico disse que a Laura poderia nascer a qualquer momento. Foi a pior coisa que ele podia ter feito. Ansiosa do jeito que sou, ia pro trabalho todos os dias com a esperança de não voltar no dia seguinte. Já não agí¼entava mais o peso, o inchaço, as coceiras, as estrias que não paravam de aparecer na minha barriga, as pessoas que sempre me perguntavam quando a menina ia nascer. Tudo era motivo de irritação. Mas eu ia levando um dia após o outro. não tinha jeito, tinha?

Ficava doida com as outras mulheres grávidas da mesma época que eu. Todas tinham sintomas de trabalho de parto iminente - dilatação, contrações, perda de tampão - e eu, nada. Tinha lá minhas contraçõezinhas Braxton-Hicks, mas não passava disso.

Além disso, eu passava o estresse da minha menina estar sentada. Descobrimos com 35 semanas. Desde então eu procurei fazer tudo o que podia para que ela virasse. A minha doula, Ingrid, me ajudou com exercí­cios. Fizemos três ou quatro sessões do exercí­cio. Basicamente era ficar ajoelhada com os quadris pra cima, peito no chão, e mexer, mexer, mexer. Eu também ficava nessa posição um tempão, quase todos os dias. Apelei também pra homeopatia, que tinha um remédio que estimulava o bebê a virar. Sem contar nas inúmeras conversas que tive com a Laura na barriga. Eu falava pra ela ser boazinha com a mamãe e virar logo, fazia massagem na barriga, fiz tudo que estava ao meu alcance, mas ela não dava sinais de que queria virar.

No final de 38 semanas, numa sexta-feira, eu mandei um e-mail pra todo mundo no trabalho falando dos meus planos para a licença. Já estava desanimada e achava que a Laura não ia nascer tão cedo. Eu ia tirar a licença quando completasse 40 semanas, no dia 26 de abril. Ainda ia trabalhar na semana seguinte. Esse era o plano. Mal sabia eu que a minha hora já estava perto.

No sábado, a Ingrid me levou pra visitar a Casa de Parto em Realengo. Que coisa mais linda! Que sonho! Foi muito bom ir lá e ver como a população da região está bem servida. Quem dera eu poder parir lá, mas eu já tinha decidido que não teria minha filha lá, mesmo que ela estivesse cefálica (e essa é outra história). Durante a nossa visita chegou uma moça já com 38 semanas e queixava-se de dor, não tinha dormido a noite toda com as dores. A diretora da Casa de Parto conversou com ela, com toda a calma do mundo, explicando o que estava acontecendo com ela. Eu fiquei do lado, com uma pontinha de inveja daquela moça, que já sentia as dores. Eu queria sentir as dores também! Mas a minha menina não dava sinais de que queria sair da barriga.

No domingo, 18 de abril, ao me deitar pra dormir, recitei a mesma ladainha para o meu marido, como fazia todas as noites: ¿Ai, eu não agí¼ento mais! Essa menina não nasce não? Quando ela vai nascer, André?¿, eu perguntava. Parece que a Laura ouviu a pergunta e resolveu dar a resposta: Puft! A bolsa tinha estourado. Senti aquele lí­quido quente e viscoso descer pelas minhas pernas. Fiquei paralisada, gritando na cama: ¿Ta molhando tudo! Ai, não pára de sair lí­quido!¿ O André levantou logo e pegou uma toalha de banho para eu colocar entre as pernas e conseguir sair da cama.

Fiquei surpresa com a quantidade de lí­quido, que não parava de sair. Estava claro, limpo. Molhou a cama toda, meus lençóis, minha roupa, molhou tudo! Tirei a roupa e fiquei no box, pelada, vazando, olhando pra cara do André com um sorriso bobo nos lábios e ainda meio atônita: ¿O que a gente faz?¿ Eu ria, tinha chegado a hora. A Laurinha ia nascer!

Era 11:30 da noite. Ligamos para o médico, que disse para irmos para o hospital e ligarmos para ele assim que chegássemos lá. Arrumei tudo para sair com toda a calma do mundo. Ligamos para os nossos pais. Meus pais nos levariam ao hospital. Liguei também para a Ingrid, minha doula. Eu tinha combinado com ela que se fosse cesárea - e, nesse caso, seria, porque a Laura continuava pélvica - eu não ia precisar de uma doula comigo, não via necessidade. Ela foi super carinhosa comigo, ainda ofereceu sua ajuda para ir comigo, mesmo sendo cesárea, mas eu não quis.

Quinze minutos depois, meu pai já estava na porta, mas eu ainda não estava pronta. O André estava todo nervoso, querendo ir logo. ¿Calma, ela não vai nascer tão rápido assim não¿.Terminamos de arrumar tudo e fomos para a Perinatal.

Já era meia-noite. As ruas estavam super vazias. Ah, como eu queria que o trí¢nsito fosse assim todos os dias! Chegamos em Laranjeiras em meia hora! No caminho eu comecei a sentir as contrações. Vinham ora de dez em dez minutos, ora de quinze em quinze, bem irregulares. Mas era o iní­cio do meu trabalho de parto! Totalmente diferente dos outros que tinha ouvido. Assim eu confirmei que cada mulher é diferente da outra, cada bebê é um bebê único e que não existe receita de bolo quando o assunto é parto.

Na Perinatal, ligamos para o médico, que pediu um ultrassom, para confirmar a posição da Laura. Eram dois médicos, um deles parecia ser estagiário ou coisa assim. O outro ensinava a ele durante o meu exame, mostrava as coisas pra ele na tela, explicando tudo. E eu ali, deitada de costas naquela mesa (ai, como doí­a!), servindo de cobaia para o médico estudante! Pra piorar a situação, a minha placenta era diferente. Tinha um nome especí­fico, mas eu já esqueci. O médico explicou que era como se fosse ¿um prato e um pires¿ em vez de ser um prato inteiro. As duas placentas eram conectadas com vasos sanguí­neos. ¿Faz uns seis anos que eu vi uma assim¿, disse o médico. Super rara a minha placenta. ¿Tá bom, doutor, mas eu quero sair daqui logo!¿, pensei.

O exame confirmou a posição pélvica da minha menina. não tinha jeito, ia ser cesárea mesmo. Fiquei com uma pontinha de tristeza, mas não podia deixar isso tomar conta de mim, afinal a minha Laura ia nascer e esse era o momento mais esperado da minha vida!

Subimos para o quarto, para esperar o médico. As contrações continuavam. Eu me agachava durante elas e isso parecia aliviar a dor, que já era bem intensa. O médico chegou, e logo tudo foi preparado para irmos para o centro cirúrgico.

Chegando lá, o André ainda estava se trocando, e o anestesista já queria começar. Pedi para esperar o meu marido, mas ele me convenceu a começar o quanto antes. Morria de medo da tal anestesia na coluna, mas até que não doeu tanto assim. não mesmo. Minutos depois minhas pernas começaram a formigar e já não sentia mais nada. O André chegou logo depois e a cirurgia começou.

Tudo aconteceu muito rápido. O anestesista abaixou o campo estéril quando tiraram a Laura de mim, às 2:28 do dia 19 de abril. A neonatologista a colocou no meu colo assim que saiu da minha barriga e pude tocar a minha princesinha, toda coberta de vérnix, chorando no meu colo. não dá pra descrever o que senti naquela hora. Uma emoção tomou conta de mim, e comecei a chorar, olhando para aquela coisinha pequena ali em cima de mim. Ela ficou uns três ou cinco minutos ali comigo (já não tinha noção do tempo) e depois a neonatologista a pegou para fazer os procedimentos. Antes de leva-la para o berçário, ainda tive a Laura no meu colo por mais uns minutos.

O André acompanhou a pediatra no berçário, enquanto eu era costurada. Tudo tinha corrido bem. Subi para o quarto e logo depois chegou a Laurinha, que foi logo pro peito. Ela media 48 centí­metros e pesava 3,1 quilos.

Fiquei no hospital dois dias, a Laura ficou com a gente o tempo todo e só foi pro berçário três vezes, para tomar banho (o primeiro foi no quarto, com a vó) e ser avaliada pela pediatra.

A amamentação é um capí­tulo à parte, mas a Laurinha é boa de boca!

A recuperação da cesárea é um martí­rio! E também dá pano pra manga.

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2 Comentários »

Comment por miranda
2008-06-22 13:36:59

Adorei ler tudo isso!!!Estou passando pelo mesmo. Estou com 37 semanas e não vejo a hora do meu filho nascer. Não aguento as cocceiras e as estrias.
Quero ver logo o rostinho do meu filho.

 
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